Divagar em dias quentes e húmidos (I)
Em fins de semana de calor húmido, quando se afasta a possibilidade de um mergulho no mar, a chuva está longe de representar o aborrecimento que, em climas mais frios, lhe costumo associar. Chego a desejá-la, pelo prazer de um momento de tranquilidade caseira, se possível entre filmes, gelados, um livro e/ou boa companhia. O mundo assistiu às imagens das cheias de 2000 em Moçambique. Ainda que, desde então, a catástrofe não se tenha repetido em tais proporções, a chuva não deixa de ser problema. Os vendedores de rua vêem diminuir os clientes; o artesanato, entre o qual as telas e os batiques, molha-se e degrada-se; os ardinas passam mal; as estradas acumulam lençóis de água, os buracos reproduzem-se, o trânsito complica-se ainda mais; e, pior do que tudo, os bairros onde reside a maioria da população são invadidos por água, que, misturada com o lixo acumulado, multiplica os problemas de higiene e saúde públicas, sempre complicados. É assim a chuva. O petróleo, os diamantes e outros bens eu já sabia. Ainda que com origem na natureza, contribuem para a reprodução de desigualdades. Mas, a chuva, que quando quando cai é para todos, que eu comecei a apreciar tão recentemente, não precisava desiludir-me assim.
Etiquetas: Moçambique


4 Comments:
:)...Bj.
Quando a estrutura das desigualdades perverte a aspersão das vidas por algo que julgávamos quando caía caía para todos, vemos um ângulo tortuoso do mais torto que se vai sempre fazendo do mundo. Fazerem-nos desiludir com a chuva não é coisa que se faça... Mas tem cada vida que resgatar o que daí ainda se possa retirar senão nada resta. Continuar a apreciar a chuva, apesar... Apreciar os posts índicos sobre a chuva, apesar...
Gosto tanto de ver essa cidade, mesmo assim cheia de agua...
Pois é Jorge Maravilhas, vieste repor a verdade algo enviesada no post. Fazem-nos desiludir com a chuva. A culpa assenta na estrutura de desigualdades e não na própria. No resgatar do que se pode, há quem o faça com muita competência: as crianças descalças que brincam à chuva, alheias aos problemas de higiene, e que me fazem questionar as vantagens da maturidade!!
Tens razão Sílvia. Esta cidade é linda, apesar de todos os problemas. Mas também por isso, estes às vezes revoltam ainda mais. Está hoje mais suja, mais esburacada, mais caótica que em 2003, problemas que se agravam sempre que chove. Quanto mais vivemos e sentimos uma cidade não como estrangeiro/a, mas como nossa, mais os problemas nos revoltam. As respostas do presidente do Conselho Municipal não convencem. Um pais que sobreviveu tantos anos sem quaisquer meios, que, ainda que com folhas de palmeira, mantinha as ruas varridas, como pode agora agrrar-se ao discurso do não há carros de recolha, não há financiamento, não há meios, não há. E brindamos com a cooperação internacional e alimentamo-nos mutuamente nos interesses pessoais, gerindo o negócio nos termos que interessa a quem tem o poder de intervenção interno e externo...
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