Flores para Vera, uma das guerreiras de Acari
Jorge Antonio Barros
11 de Agosto 2008, Globo online
Às 11h de hoje todo brasileiro que luta em defesa da vida deveria ter estado no Cemitério do Catumbi, no Rio, onde foi sepultada praticamente anônima Vera Lucia Flores, uma das Mães de Acari - o grupo de mulheres que desde 1990 luta pela punição dos policiais suspeitos do assassinato e desaparecimento de 11 jovens da favela de Acari, que foram fazer um passeio em Magé. Entre os jovens poderia haver algum que teria ligações com o tráfico, mas nada justifica uma violência dessas, até hoje sem pistas concretas. Sequer os corpos ou restos mortais foram localizados. Vera era mãe de Cristiane Souza Leite, que desapareceu com o grupo de jovens. Guerreira incansável na luta por Justiça, Vera ainda amargou a perda de uma companheira, Edméia, mãe de Acari que foi assassinada por sua liderança no movimento.
Repasso o comunicado que recebi da Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência:
"A companheira Vera Lucia Flores, Mãe de Acari, faleceu na madrugada do dia 10 de agosto de 2008. O corpo de Vera será velado na capela E, do Cemitério do Catumbi, a partir das 13 horas de hoje (10/08/2088). O enterro acontece amanhã, 11 de agosto de 2008, às 11h.
Verá será lembrada como um dos maiores exemplos de coragem e perseverança que conhecemos. Vera teve sua filha Cristiane Souza Leite desaparecida em 1990 juntamente com outros 10 jovens, no episódio conhecido como "Chacina de Acari" – um dos casos mais emblemáticos de desaparecimento forçado ocorrido no período "democrático" do país.
"Falta alguém na minha casa"! Essa era uma frase que Vera sempre dizia, referindo-se à ausência da filha. Desde o desaparecimento de sua filha, a vida de Vera Flores, como a das outras mães, tornou-se uma verdadeira peregrinação em busca de informações sobre o paradeiro dos filhos. Juntamente com outras mães, percorreu cemitérios clandestinos, escritórios, instâncias burocráticas, delegacias de polícia, presídios, conversou com juízes, delegados, secretários de segurança, autoridades policiais, sempre em busca de informações.
Sempre com uma foto da filha e recortes de jornais, Vera também correu o mundo para denunciar a violência e a injustiça cometida contra sua filha, especificamente, mas também contra tantos outros jovens que morrem ou "desaparecem" forçadamente nas favelas e periferias do Rio de Janeiro e do Brasil. Viajou pela Europa por duas vezes a convite da Anistia Internacional, das Mães da Praça de Maio e da ex-primeira dama francesa Danielle Miterrand, para participar de eventos e manifestações denunciando a "Chacina de Acari" e cobrar justiça e punição dos responsáveis. Os responsáveis, é importante lembrar, são policiais integrantes de um grupo de extermínio conhecido como "Cavalos Corredores", também acusados de participar da Chacina da Candelária e de Vigário Geral. Em suas últimas aparições em manifestações Vera fazia questão de lembrar que além dos grupos de extermínio, atualmente as mães de vítimas de violência e os defensores dos direitos humanos se deparam com o problema da atuação e existência das milícias, também com participação de policiais.
A dor e o sofrimento de Vera Flores não se limitaram à perda da filha Cristiane, o que por si só já seria muito. A dor emocional estendeu-se ao próprio corpo, tornando-se dor física. Após o desaparecimento da filha, Vera desenvolveu uma diabete emocional, sendo internada diversas vezes e chegando a ter alguns dedos do pé amputados. Seu quadro de saúde foi se agravando. Vera estava com sérios problemas de retenção de líquido e tinha uma clavícula quebrada por conta de um tombo recente. Mais uma mulher forte que teve sua trajetória interrompida antes de alcançar seu objetivo principal – encontrar o corpo de sua filha.
Vera foi um exemplo de luta não só para outras mães de vítimas da violência policial do Estado do Rio de Janeiro e de outros estados do Brasil, mas para todos os que militam em defesa da luta pelos direitos humanos. Vera nos deixa, mas sua força continuará existindo dentro de nós, como combustível para seguirmos na luta contra as arbitrariedades das forças policiais e das demais instituições repressoras do Estado, contra a impunidade dos responsáveis pelos crimes que marcam as políticas de extermínio rotuladas como políticas de Segurança Pública.
Ao luto de Vera pela perda da filha agora se junta o nosso luto pela perda de Vera. Nosso luto, nossa luta! A luta de Vera não se perdeu no caminho, tampouco foi em vão. De tudo fica um pouco, mas um pouco que será suficiente para continuarmos a luta em memória de Vera Lúcia Flores. "As pessoas não morrem se encantam", dizia o escritor João Guimarães Rosa. O mesmo pode-se dizer de Vera, com um acréscimo: "Vera não morreu, após tanto desencanto, se encantou e nos encantou"!"
Assino embaixo.