quinta-feira, fevereiro 16, 2006

o campo minado




STALINE:

(A Hitler.) Hitler, meu amigo de ontem. Irmão Hitler.
Deitas-me fogo às aldeias. Fazes bem.
Porque te odeiam, gostarão de mim.
O teu rasto de sangue branqueia o meu nome.
Enquanto durares, e não mais tempo do que eu,
Continua a vencer. Lança os teus tanques na neve
Que os há-de sepultar quando for tempo disso.
As minhas costas chamam-se Ásia, os meus lobos estão à espera
Aprenderam no meu gulag.
A tua guerra é a esperança que eles têm de ir
Para a Alemanha seguindo o rasto dos teus tanques. Deitaste
Abaixo as comportas, agora vem a inundação.
Vais ser o primeiro a ser engolido.
O último vencedor é a morte.
Na gaiola dos ratos verás Moscovo
Antes de os teus mortos e os meus ressuscitarem.



Heiner Muller (1996), "Germânia 3. Os espectros do morto-homem"
(tradução de Eduarda Dionísio e Maria Adélia Silva Melo)
Edições Cotovia, Lisboa, 1997.

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3 Comments:

Blogger Nuno disse...

Caríssimo Pedro,

Tenho sérias dúvidas sobre se do ‘lado de lá’ do campo minado apenas se avistam as silhuetas daqueles que carregam o detector de minas. E que, tens razão, não merecem a nossa confiança nem estão, verdadeiramente, connosco. E por isso mesmo é que nós não passamos a estar com eles pelo facto de não nos calarmos, mesmo correndo o risco de as vozes se confundirem, que é um risco real.
Como tenho sérias dúvidas de que pareça, do ‘lado de lá’, que são os do detector de minas quem nos guia e comanda, apesar de poder parecer que caminhamos ao seu lado (a diversidade de artigos de opinião, na imprensa nacional e internacional, creio ser bem ilustrativa do pluralismo deste movimento).
Aliás, a questão talvez seja justamente essa: é que não se trata de um exército, mas sim de uma onda plural, com diferentes razões, vozes e motivações. Não é um batalhão ordenado e uniforme, nem um coro alvo e uníssono.
E creio, sinceramente, que isto se percebe do ‘lado de lá’.

Um grande abraço,
Nuno

6:02 p.m.  
Blogger Nuno disse...

Caríssimo Prof. Pureza,
É sempre muitíssimo bem-vindo, estejamos ou não de acordo.
Um grande abraço,
Nuno

6:04 p.m.  
Blogger Nuno disse...

Querida Sílvia,

Há uma grande diferença entre as limitações e violações à liberdade de expressão que nos rodeiam quotidianamente, mais subtis ou descaradas, mais visíveis ou invisíveis, e estas reacções violentas à liberdade de expressão. Não se mata, nem se ordena matar, não se destrói, nem se manda destruir, como resposta a uma opinião, escrita, falada ou desenhada, que não nos agradou, que nos ultrajou, que consideremos até sacrílega. ‘Cá ou lá’. Não importa. A resposta a isto só pode ser uma: Não!
‘Não’, independentemente do ‘inimigo’ que esteja em causa;
‘Não’ independentemente de se tratar de matéria religiosa, política ou cultural;
‘Não’, independentemente de poder tratar-se de uma atitude provocatória;
‘Não’, independentemente do seu aproveitamento para fins políticos ou estratégicos.

Um grande beijo,
Nuno

6:05 p.m.  

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