terça-feira, fevereiro 14, 2006

lugares e fronteiras


(arthur rackham, pandora box)

tão pouco serei eu a fechar a caixa de pandora.
e se ninguém levantar legítimas objecções, por mim este pode ser também um lugar, entre cem, que acolha viagens dos nossos pensamentos e debates.


antes de mais, para vos ser muito franco, confesso que ainda não percebi exactamente qual é o argumento que tem estado presente a propósito dos cartoons e das suas sequências.
é o facto de, por existirem à nossa volta, ou dentro de ‘nós’, situações de limitação e sanção da liberdade de expressão, nos devermos coibir de manifestar a defesa dessa liberdade em relação aos cartoons?
é o facto de a eventualidade de os cartoons terem sido orquestrados nos tornar de algum modo colaboracionistas (ou lidos enquanto tal), caso reivindiquemos o respeito pela liberdade de expressão e a não cedência à sua restrição, perante as respostas de quem se sentiu, com razão ou sem ela, ultrajado?
ou é a resistência a tomarmos posição com o medo de entrarmos na senda do ‘nós’ e ‘eles’, seja lá o que for o nós e o eles (que não me interessa), no receio da consciência acrescida de que teremos (temos) telhados de vidro?

a mim, o que me parece essencial nesta questão em concreto é a necessidade de afirmar que sobretudo são inaceitáveis algumas das formas em que se traduziu a indignação e a revolta que os cartoons suscitaram. e refiro-me, como é óbvio, às respostas violentas que – entre a destruição e as ameaças de morte –, ocorreram (orquestradas ou não, também não me interessa). como é igualmente inaceitável que tal constitua pretexto para relativizar ainda mais o direito à liberdade de expressão, em nome de uma suposta pacificação da boa relação entre civilizações ou do que quer que seja.

não são agradáveis, para crentes e até não crentes, os ‘cartoons de maomet’, ou as ‘últimas tentações de cristo’ ou os preservativos nos narizes dos papas? causam-lhes, a crentes e não crentes, revolta e indignação? sentem a necessidade de desagravo, podendo para esse efeito desencadear acções em tribunais, manifestações pacíficas, ou solicitar pedidos de desculpa e até indemnizações pecuniárias? ou podendo para este efeito tentar dissuadir espectadores nas bilheteiras das salas de cinema ou leitores em quiosques e livrarias? façam-no. com razão ou sem ela, façam-no. o expressar da indignação, do ultraje, da reprovação, pode e deve ser também um direito. o outro lado, se quisermos, da mesma liberdade de expressão.
já não o é, contudo, e aí não entro em relativismos ou cedências, a ameaça da integridade física do outro, a destruição, a tentativa ilegítima de censura, silenciamento ou proibição expedita.

e recuso-me, obviamente, a traçar linhas em mapas. que dividam norte e sul, civilização e barbárie, culturas, o que seja. em todos os lugares encontramos, ainda que em muito distintos graus e circunstâncias, as verdadeiras linhas divisórias. as que separam os que defendem, e os que não defendem, ‘coisas’ como a liberdade de expressão. linhas estas que, sendo bastante claras, não me parecem contudo ‘traçaveis’ em nenhum mapa.

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6 Comments:

Blogger Pedro disse...

Pela liberdade de expressão e contra a violência, sempre.

O que a mim me choca nesta barulheira é a descarada hipocrisia daqueles (e só daqueles) que, tendo apoiado a guerra do iraque, encontrando justificações para Guantánamo, sendo diariamente responsáveis, cúmplices ou apoiantes das mais variadas formas de violência, discriminação e ataques à liberdade de expressão, sejam agora os primeiros e mais estridentes defensores da liberdade. Alguns deles vão mais longe e já não têm sequer pudor em denunciar as inclinações "naturais" dos muçulmanos para a violência, a irrestível tentação dos muçulmanos para dominar o mundo e, até, a comprovada menoridade técnica, artística e filosófica dos muçulmanos. O que esta gente defende não é liberdade. É a superioridade do Ocidente e a sua legitimidade para dominar o mundo.
Nem tu, Nuno, nem uma boa parte dos que, de uma forma ou de outra, têm militado por estes dias a favor da liberdade de expressão se confundem com esta postura. Mas contribuem, ainda que indirecta e involuntariamente, para reforçar a distinção entre o "nós" e o "eles" e o "cá" e o "lá" que a tantos interessa e não por boas razões.
É por isso que eu digo que a discussão é inoportuna, se presta a equívocos e, tida nesta altura e sendo alimentada e conduzida por extremistas e fundamentalistas de ambos os "lados", não leva a lado nenhum.
Nestas coisas dos movimentos cívicos, e precisamente por serem movimentos colectivos e não individuais, as companhias (e sobretudo as agendas escondidas atrás das boas intenções) contam.
Como o Independente sugeria na semana passada, eu posso ser, com orgulho, um dinamarquês (e borrifar-me para o 24 horas lá do sítio). Como sou um americano que despreza Bush. Como sou um habitante na favela a quem o afroreggae veio dar esperança. Como sou um cocalero entusiasmado com Evo Morales. Como sou um israelita que quer a paz e o diálogo com os palestinianos. Como sou um iraniano que não quer armas nucleares em nenhum país do mundo. Como sou um iraquiano que não percebeu ainda as vantagens do napalm em relação ao saddam.
É com toda esta gente que eu quero falar de liberdade de expressão. E de direitos humanos. São as suas crenças religiosas que eu quero perceber. É com eles que eu quero aprender. Só com elas se poderá fazer um mundo melhor.

O que é irónico é que acabo por dizer estas banalidades a pessoas como tu, que sei que pensas como eu e que tanto me tens ensinado a respeito de humanismo, generosidade e respeito pelo outro.
Mas, desta vez, os mesmos princípios levam-nos por caminhos diferentes.
Encontramo-nos já a seguir!

3:35 a.m.  
Blogger Nuno disse...

Meu caro e muito estimado Pedro,

Sou absolutamente sensível ao teu argumento, respeito-o por inteiro e mentiria, aliás, se dissesse que não me coloca alguns problemas ao nível do colectivo e das companhias, que não é questão de somenos importância.

O que me faz lembrar, de resto, aquele unanimismo aparente nos momentos culminantes da independência de Timor, em que se juntavam desde saudosistas do império aos saudosistas da independência vanguardista e revolucionária (à bruta, como convém).

Com estas reservas, que acredita são muito genuínas e sentidas, creio apesar de tudo que vale a pena, nesta turba multiforme, tentar fazer valer os argumentos que solida e convictamente nos unem (e esses sei muitíssimo bem que nunca estiveram minimamente em causa). No espectro total, parece-me importante que eles estejam também presentes, pois não é pela sua ausência que os 'oportunistas' (chamemos-lhes subjectivamente assim) deixarão de se fazer ouvir.

E concordando contigo, nestes termos, que este não é este, definitivamente, o tempo ideal para fazer valer as 'boas razões', a verdade também é que elas poderão constituir algum travão para que um discurso de intenções mais obscuras ganhe maior dimensão e prevalência.

Aceito bem, com um sorriso que sei que sabes o que significa de cumplicidade e encontro de pensamento, que estamos - nestes breves momentos - com divergências no agir, não mais do que isso. E que é algo que comporta também, isso é o mais valioso, a sempre tão enriquecedora, para mim, troca de pensamentos e opiniões contigo.

7:42 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Desculpem intrometer-me, mas queria só dizer duas coisas. A primeira é que me revejo por inteiro na primeira frase do comment do Pedro. A segunda é que mal estariamos se nos calássemos por causa de más companhias de circunstância: ficaríamos mudos para o resto da vida. Por mim, não estou disponível para dar esse prazer a tutti quanti. Abraços.

2:41 p.m.  
Blogger Pedro disse...

Seja bem-intrometido quem (como será o seu caso) se intrometer por bem, mesmo que fazendo uma leitura parcial do que escrevi (as "agendas escondidas" estão lá, entre parênteses mas com um "sobretudo").

Uma imagem de guerra: quando o caminho mais óbvio e imediato para onde queremos ir é um campo minado, avançamos atrás de quem leva o detector (mesmo que não confiemos nele) ou vamos à volta, na certeza de que há sempre alternativas?

Abraço.

6:31 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

So pergunto porque e que essas manifestacoes pela liberdade de expressao so' surgem agora, e no contexto em que surgem, e com o inimigo que apontam, em vez de terem surgido tantos outros milhares de vezes a proposito dos atentados quotidianos a essa mesma liberdade de expressao.
Sei que isto nao pode ser desculpa para a inaccao, tipo se nao o fizemos antes nao temos legitimidade para o fazermos agora, mas devemos ir para alem disso nas nossas perguntas.
Porque e que tem de surgir como contraponto 'as outras manifestacoes, no contexto de uma imaginaria divisao ocidente/oriente, e nao tantos outros contextos, afrontando um outro que, se calhar 'e mais proximo, mais poderoso, ou mais assustador... seja ele quem for? Porque e que as omissoes quotidianas nos jornais nao sao igualmente importantes, porque e' que tantas outras exclusoes do espaco publico nao sao igualmente importantes para nos fazer assinar abaixo assinados ou manifestar? Como e que caimos na esparrela de de pensar que a "liberdade de expressao" e uma conquista da "civilizacao" "ocidental" quando, obviamente nao ha liberdade de expressao, nao ha civilizacao, e a coisa do ocidental e muito duvidosa nos dias que correm?
Mais do que nunca acho que nao podemos ser ingenuos porque e' claro o rumo das coisas, este inventar de um inimigo que interessa aos dois lados so pode ser evitado nao cairmos no jogo do nos vs outro. E provavelmente nem isso vai evitar o rumo que as coisas levam.

9:03 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

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