segunda-feira, setembro 11, 2006

Mex. & Co.

Para quem chega da vila, a aldeia divide-se em duas, cortada pela estrada que uns senhores vieram abrir, há já uns anos valentes. Chamam a uns os do cimo e aos outros os do fundo (por causa da inclinação da terra), mas podiam perfeitamente, porque a estrada não tem saída, chamar os da esquerda a uns e os da direita aos outros.
Uns e outros reclamavam junto do almotacel os melhores horários para regar e sempre se queixavam que ele favorecia a parte contrária, que isto de nos levantarmos de madrugada só para que os feijões não sequem dá, de facto, muito trabalho. Os da esquerda acusavam-no de direitista e os da direita, como se intui, protestavam contra o que chamavam os tiques esquerdistas do almotacel.
Ao contrário do que se esperaria, este fogo cruzado não fazia do juiz das águas um homem do centro. A sua casa não era sequer à beira da estrada, mas bem no extremo de uma das partes em que se dividia a aldeia. Ele sempre soube, portanto, qual era o seu lado, e nunca o escondeu.
Mas entendia o almotacel que na gestão das águas essa questão não fazia sentido. Era uma tarefa demasiado preciosa para a sobrevivência da aldeia para que ele a pudesse pôr em causa com questões polares. Cabia-lhe (e ele sabia a dimensão da sua responsabilidade) administrar com justiça e equidade um recurso único (a levada que servia a aldeia) de acordo com as regras que ambos os lados tinham aceite.
Certa noite, num assomo de coragem, o seu filho de quatro anos interrompeu a tranquilidade do serão familiar e disse:
- Óh pai, os meus colegas lá na creche dizem que tu és um banana porque não aproveitas o facto de seres almotacel para favorecer o nosso lado da aldeia.
O pai sorriu com a serenidade de quem sabia que isto ia acontecer um dia. Respondeu-lhe:
- Sabes, filho, para que possa continuar a haver dois lados na nossa aldeia, para que possa continuar a haver aldeia, temos que salvaguardar o bem comum, não para eliminar as diferenças, mas para que elas se possam manifestar de uma forma sã e construtiva.
Apercebendo-se do sobrolho franzido da criança, acrescentou:
- É como nas eleições. Mais importante do que saber quem ganha é ter a certeza de que elas foram livres e que não houve fraudes ou falsificação dos resultados. De cada vez que viciamos um processo eleitoral estamos a corroer um pouco mais as possibilidades da democracia.
- Está bem. - concordou o filho, enquanto voltava a pegar na caderneta dos morangos com açúcar.
- Achas que ele percebeu? - sussurou a mãe, levantando discretamente os olhos do jornal.
- Claro - assegurou o almotacel -, claro que sim. Há coisas que até uma criança percebe.

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1 Comments:

Anonymous Anónimo disse...

Pronto pedro. rendo-me 'a inspiracao dos dois :) ja vi que a musa passou por esses lados :)
adorei a historia e o modo como a contas.
Dito dessa maneira torna tao claro que e' essencial continuar a alimentar as diferencas. mas depois nesta patologia do consenso que perpassa tudo (ou do hibrido, ou do pos-moderno) tao facilmente se esquece porque e que tem que existir diferencas. Deve ser por isso que hoje ouvi duas vezes o termo "patologico", algo que eu pensava ja ter desaparecido do lexico das ciencias sociais.
E sim, e' possivel ensinar democracia 'as criancas de 4 anos. ainda que nao fosse exactamente colocado nestes termos, sob o risco de ter que explicar o que e a democracia. E ja me basta por agora agora ter que arranjar uma forma de explicar o que e' rezar.

3:58 p.m.  

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