sábado, julho 07, 2007

steel cathedrals

(Fotos de Pedro Hespanha)
O interior daquele que é, seguramente, um dos mais belos edifícios do mundo onde a Zara já teve a oportunidade de se instalar. Também aqui, à semelhança de toda a cidade de Salamanca, as soluções arquitectónicas que conciliam a monumentalidade do construído antigo (neste caso uma igreja) com a ousadia das linhas e materiais da modernidade, são notavelmente conseguidas. Não se sabe ao certo o que corta mais a respiração: se a imponência das colunas que se erguem até às magestosas abóbadas, se a verticalidade e simetria metálica das estruturas envidraçadas.

Etiquetas:

7 Comments:

Blogger Maria disse...

Eu sei que provavelmente naquelas condicoes a alternativa seria arrasar o edificio ou deixa-lo ruir. Ou ate que este gosto pela arte intocada pelo comercio e' inculcacao ideologica que esconde as reais relacoes das forcas sociais e arte sempre esteve associada ao dinheiro. Eu sei que as catedrais actuais sao as Zaras. Eu sei que o metal e a pedra e o vidro ate combinam. Eu sei que as futuras geracoes olharao para as misturas de hoje com admiracao como olhamos hoje para os monumentos que testemunham a passagem da historia sem precebermos o que e que da historia se perdeu. Mas custa-me. Como o museu Picasso de Muenster que para existir tem por detras um centro comercial que engoliu um destes monumentos e uma rua. Resultado de uma parceria publico-privado, como certamente sera o que esta na origem da de Salamanca.

6:37 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

O que eu gostava mesmo de saber (subscrevendo tudo o que a nossa maria disse) é o que é que uma embaixada de cientistas sociais andava a fazer nos corredores de um pronto-a-vestir de máquina fotográfica em punho. Isso é que eu gostava.

8:54 a.m.  
Blogger Nuno Serra disse...

E se fosse a adaptação de uma igreja para um teatro? Ou para um restaurante? Ou a sua conversão num café (como é o caso do nosso agradável Santa Cruz)? Já nos custaria menos a metamorfose, a perda de história? Será que o que está aqui em causa não é algum preconceito em relação a uma empresa capitalista multinacional?
Em Salamanca duvido que se corresse o risco da ruína do edificado, pelo que não é por essa via que não me choca a zarização da igreja. E este caso não é propriamente uma política extensiva do Ayuntamiento, mas sim uma situação absolutamente pontual. Que talvez se trate de facto de uma parceria público-privado, mas desconheço os seus termos. É necessariamente má uma parceria desse tipo?
Creio que se esta intervenção não me incomoda, tal se deve sobretudo à sua qualidade (nos antípodas de um deplorável exemplo em Coimbra: o Centro Comercial da Sofia). O património histórico parece-me além do mais intocado, o que torna o processo reversível. E a conciliação é sóbria, criativa, estudada, também ela monumental.
Confesso-vos que num quadro destes, caríssimos amigos, só mesmo professando uma religião e sendo dogmaticamente intransigente quanto ao uso de igrejas e catedrais, me oporia a esta intervenção em concreto.

8:48 p.m.  
Anonymous Anónimo disse...

Nuno, não te chateies.
Acho que o que me faz impressão nestes casos é mesmo o meu preconceito contra as multinacionais, sim, e a forma como elas se apropriam (mesmo quando o pagam) do património que devia ser público para aí instalar um produto massificado. A manutenção das pedras originais cheira-me normalmente a peso na consciência.
Há aqui um contra-senso: por um lado, estas empresas prosperam a alimentar a ideia de um mundo global e plano - a mesma t-shirt de cavas de boston a nova deli; o mesmo hamburguer de toronto a pequim. Arrasam, nomeadamente através das suas políticas laborais, com aquilo a que chamam as "particularidades locais" dos sítios onde se instalam, como se elas próprias fossem fruto, não da cultura local de uma certa parte do globo, mas antes de uma "cultura universal", que se aplica uniformemente ao mundo inteiro.
Por outro lado e sempre que podem, elas aproveitam, seja para efeitos de marketing, de branqueamento de consciências ou simplesmente por razões comerciais (a sua localização nos centros históricos, por exemplo), muitas dessas particularidades locais (em que o património se inclui) para benefício próprio, sabendo que elas têm ainda importância para os seus consumidores.
Neste sentido, confesso, o meu primeiro olhar para este tipo de intervenções é sempre de desconfiança, mesmo quando as soluções técnicas (do ponto de vista arquitectónico e de salvaguarda dos edifícios originais) são de boa qualidade, como tu nos dizes que esta é e eu acredito.
Também neste sentido, de facto olho de maneira diferente para o Café Santa Cruz ou para o Theatre des Bouffes du Nord (o do Peter Brook, em Paris, que só conheço de fotografias - http://www.bouffesdunord.com/). São na mesma apropriações do património para fins diferentes dos originais e até, em alguns casos, para uma exploração comercial, mas garantem uma das características que mais valorizo no património histórico: o seu enraizamento na escala local, no meio e na comunidade em que está inserido, a sua contribuição para a definição das identidades locais.

Um abraço!

8:11 a.m.  
Blogger Nuno Serra disse...

Oh, mas eu não estou chateado Pedro :-) Muito pelo contrário. E desculpem se o registo da escrita deu essa impressão, como é possível, apesar de não ser nada o caso. Aliás, fiquei sobretudo contente por se ter instalado mais um interessante debate, numa matéria nada cristalina, neste espaço comum. Prossigamos portanto :-)

Pedro, eu subscrevo por inteiro o que dizes sobre a voracidade, oportunismo e planura de intenções e práticas de empresas multinacionais, em processos de apropriação que se movem pelas piores razões apesar das aparentes boas causas. E também te digo, meu caro, que preferia que estes processos de metamorfose estética e funcional fossem à partida conduzidos e apropriados por instâncias públicas, com finalidades públicas. Como reconheço, e este é o aspecto crítico mais evidente, que neste caso em concreto não há de facto uma intencionalidade de valorização e afirmação de traços locais, da cultura local. Há massificação e normalização, é certo, apesar da qualidade da intervenção e da conciliação entre o património e a nova funcionalidade. E de nada vale, neste sentido, tentar dizer que é uma Zara, mas uma Zara diferente das outras.

Ou seja (primeiro ponto), digamos que não me oponho por princípio à transformação estética e funcional do património, desde que feita com qualidade, conciliação e estudo.
Digamos também (segundo ponto), que intervenções deste tipo devem exigir o cumprimento de finalidades públicas (trata-se efectivamente de património de todos), mesmo que levadas a cabo por entidades privadas.
E (terceiro ponto), sobretudo porque o âmbito é manifestamente cultural, a exigência da afirmação do local deverá ser um factor, e critério, muito relevante.

Isto é, se imaginar exactamente aquela mesma intervenção (cuja qualidade e cuidado me parecem notáveis), aquela mesma estrutura e solução arquitectónica, com outra funcionalidade (um museu, por exemplo, ou até uma livraria), obviamente a preferiria a uma loja globalizada de roupa. Reconheço que se perde em ter sido esta a funcionalidade escolhida, mas enquanto solução arquitectónica continuo a pensar que foi uma intervenção feliz (se calhar até foi justamente isto que vocês quiseram dizer, desde início... :-)

Um grande abraço!

7:13 a.m.  
Anonymous Anónimo disse...

A dominacao ecologica da racionalidade economica. E' isto mesmo, quando se torna tao normal que temos que fazer um esforco para nos lembrarmos dos argumentos para para esgrimir contra. Sim nao gosto mesmo da ideia das multinacionais ocuparem os espacos mas nao me faz nenhuma impressao entrar numa para ir olhar para as ropinhas. O problema nao e meu. Eles e' que ultrapassaram as fronteiras e entraram nos nossos outros espacos. E agora o que faco? Talvez o mais logico seja mesmo recusar-me entrar nas Zaras.

2:09 p.m.  
Blogger Nuno Serra disse...

Não será caso para tanto, Sylvie. Até porque não sei se espaços destes em concreto, sendo nossos, são tão nossos assim. É que isto também levanta, se quisermos ir ao extremo das coisas, questões de laicidade.

2:45 p.m.  

<< Home