Metáfora
dedicada ao Teatro Avenida, que aparentemente morreu ontem, de forma discreta mas contudo anunciada.
"- Quando eu morrer, não quero ser enterrado. Porque me faz muita impressão meterem-me na cova ou no jazigo. Ai, sofro de uma forma grave - muito grave - de necro-claustrofobia!, (palavra composta; composta por mim).
- Prefere... ser cremado?
- Não, também não! Também me faz muita impressão! O forno a aquecer, a aquecer em brutalíssima temperatura, - e eu a queimar-me, a queimar-me em brutalíssima queimadura...
- Então quais são as suas ordens, as suas disposições - para o seu funeral?
- Quero que chamem... o meu amigo ilusionista.
- Hein?! O seu amigo ilusionista?!
- Exactamente. Eu tenho um grande amigo ilusionista. Que trabalha nos circos. Nos palcos. Nos palcos dos circos; e por vezes também nos palcos dos teatros. Chamem-no, por favor. Ou ele que não se esqueça, e venha de sua iniciativa despedir-se de mim. E que, num último gesto generoso de amizade, realize sobre o meu cadáver um dos números da sua arte de ilusionismo deveras mágico. Feche o caixão - corpo continente do meu corpo conteúdo; bata as palmas; música, maestro!; abra o caixão, - e nada lá dentro!!!
*
- Música. Mais música, maestro. E palmas. Mais palmas. Mas agora vossas. Vá, batei palmas vós também. O Mágico bateu as palmas... para me sumir. Batei vós agora palmas - para o aplaudir! Para aplaudir - aquele sumir... aquele mágico sumir-se... aquele mágico sumir-me... que ele me concedeu. Que eu lhe pedi - e ele me concedeu. Oh, o meu amigo Mágico! O meu querido amigo Mágico! Sempre fomos tão amigos! Sempre fomos - como irmãos! Como gémeos! Ai, sempre fomos - como um só! Aparentemente diferentes, aparentemente duplos, mas no fundo - como um só. Música, maestro! Muita música, maestro! Sem música - não há ilusão; nem ilusionismo! Sem música - não há magia! Música, pois, senhoras e senhores! E palmas, se fizerem favor. Porque as palmas - também fazem... também podem fazer... parte da música. As palmas - também podem ser musicais...
(A orquestra, dirigida pelo maestro, - continua a tocar.
A assistência - continua a aplaudir.
O pano - começa a cair.
Mas, depois de cair, pode logo subir outra vez: para que, após a interpretação declamada, se proponha mais alguma interpretação, - por exemplo: dançada, coreográfica, - do mesmo Aforismo.
E, na verdade, porque é que não há-de apetecer... por exemplo dançar, sim, dançar! a propósito de um funeral - ou de uma hipótese de uum funeral, (hipótese, afinal, de pseudo-funeral) - em que o corpo do morto... desaparece? Ou melhor: em que o morto... desaparece do corpo! Ou melhor: em que o corpo... desaparece do corpo: - desaparece da própria Matéria!
E isso, por força do Mágico.
E isso, por força do Espírito.
FIM"
Vicente Sanches, "Metáfora - Aforismo (de teatro",in "A Birra do Morto / Promissão do Quinto Império / Metáfora", Lisboa: Livros Cotovia, 1998.
"- Quando eu morrer, não quero ser enterrado. Porque me faz muita impressão meterem-me na cova ou no jazigo. Ai, sofro de uma forma grave - muito grave - de necro-claustrofobia!, (palavra composta; composta por mim).
- Prefere... ser cremado?
- Não, também não! Também me faz muita impressão! O forno a aquecer, a aquecer em brutalíssima temperatura, - e eu a queimar-me, a queimar-me em brutalíssima queimadura...
- Então quais são as suas ordens, as suas disposições - para o seu funeral?
- Quero que chamem... o meu amigo ilusionista.
- Hein?! O seu amigo ilusionista?!
- Exactamente. Eu tenho um grande amigo ilusionista. Que trabalha nos circos. Nos palcos. Nos palcos dos circos; e por vezes também nos palcos dos teatros. Chamem-no, por favor. Ou ele que não se esqueça, e venha de sua iniciativa despedir-se de mim. E que, num último gesto generoso de amizade, realize sobre o meu cadáver um dos números da sua arte de ilusionismo deveras mágico. Feche o caixão - corpo continente do meu corpo conteúdo; bata as palmas; música, maestro!; abra o caixão, - e nada lá dentro!!!
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- Música. Mais música, maestro. E palmas. Mais palmas. Mas agora vossas. Vá, batei palmas vós também. O Mágico bateu as palmas... para me sumir. Batei vós agora palmas - para o aplaudir! Para aplaudir - aquele sumir... aquele mágico sumir-se... aquele mágico sumir-me... que ele me concedeu. Que eu lhe pedi - e ele me concedeu. Oh, o meu amigo Mágico! O meu querido amigo Mágico! Sempre fomos tão amigos! Sempre fomos - como irmãos! Como gémeos! Ai, sempre fomos - como um só! Aparentemente diferentes, aparentemente duplos, mas no fundo - como um só. Música, maestro! Muita música, maestro! Sem música - não há ilusão; nem ilusionismo! Sem música - não há magia! Música, pois, senhoras e senhores! E palmas, se fizerem favor. Porque as palmas - também fazem... também podem fazer... parte da música. As palmas - também podem ser musicais...
(A orquestra, dirigida pelo maestro, - continua a tocar.
A assistência - continua a aplaudir.
O pano - começa a cair.
Mas, depois de cair, pode logo subir outra vez: para que, após a interpretação declamada, se proponha mais alguma interpretação, - por exemplo: dançada, coreográfica, - do mesmo Aforismo.
E, na verdade, porque é que não há-de apetecer... por exemplo dançar, sim, dançar! a propósito de um funeral - ou de uma hipótese de uum funeral, (hipótese, afinal, de pseudo-funeral) - em que o corpo do morto... desaparece? Ou melhor: em que o morto... desaparece do corpo! Ou melhor: em que o corpo... desaparece do corpo: - desaparece da própria Matéria!
E isso, por força do Mágico.
E isso, por força do Espírito.
FIM"
Vicente Sanches, "Metáfora - Aforismo (de teatro",in "A Birra do Morto / Promissão do Quinto Império / Metáfora", Lisboa: Livros Cotovia, 1998.
Etiquetas: Portugal


2 Comments:
Que triste noticia. Tive esperanca que se conseguisse aguentar com a programacao que tem agora e com a quantidade de gente da tal classe criativa que existe na cidade. Assim como outros em outras cidades com essa programacao se aguentam.
Se ao menos pudesse ser usado como sala de teatro agora. Enfim, nem sei se tem condicoes. Tens de me contar melhor essa historia. Foi uma surpresa esperada.
Hey what a great site keep up the work its excellent.
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